sobre conversas tamanho longneck

Este texto é para você  – jovem mulher – que está vivendo recorrentes crises do famoso “estou velha demais pra isso”

Primeiramente: vou arrancar fora esse pejorativo adjetivo velha e dizer uma única coisa: você é madura.

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[Cenário de hoje: você e ele ali em pé, mais ou menos em um canto de bar, tentando construir um diálogo que faça sentido – ou nem isso]

Vocês descontraem, pedem uma cerveja e vão seguindo o roteiro tradicional – hola que tal o que você faz e p-i-m-b-a.

Ops, não, você hoje não é pimba.
Hoje você pediu licença, foi até o banheiro e nunca mais voltou.

Se olhando no espelho, você se viu vazia. Tentou colher migalhas de sentido no que estava fazendo e o resultado foi .. nada. Você vai pra casa e pensa: hoje não tô bem, tô cansada, a semana foi foda, preciso dormir.

Semana que vem a cena se repete. E na outra, outra, outra

Você dá um tempo pra você, fica uns fins em casa, tenta sair de novo e … a cena se repete.

Já é hora de seus amigos sentirem teu sumiço e tentarem a irrecusável manobra chamada catuaba selvagem sexta à noite, mas …..  você.não.consegue.mais.fazer.isso.

Eis que você atribui tudo isso à sua idade. Pensa comigo: já curti demais, já aprontei, fiz tudo o que uma juventude louca demanda, já fiz e já acabou.

Tô velha.

[Ah, finalmente um diagnóstico]

Guria, veja bem, você não se anima com mais nada, pois tua cabeça tá dividida em 3  grandes dilemas:

  1. um futuro imprevisível que te deixa sem chão;
  2.  um passado recente de memórias superficiais;
  3. uma coleção de lembranças que partiram seu coração e ficam tocando aquele maldito alarme toda vez que você parece que vai tocar la vie.

Guria, acorda, você não tá velha.

Você apenas viveu o suficiente pra dizer o que você quer e o que você não quer.

Você já definiu teus próprios filtros e não vai se satisfazer com o que rolar randomicamente nesta noite. Você tem força de dizer não, pois suas reais necessidades demandam mais, muito mais.

  1. você (assim como eu) simplesmente não suporta mais perder seu tempo com coisas que não te agradam.
  2. você não quer ouvir e viver sempre a mesma história. vc quer ouvidos pra contar a sua e ferramentas pra construir uma nova.
  3. você quer agir naturalmente, não pensar mil vezes antes de mandar a primeira mensagem (sem parecer que tá desesperadamente se jogando), por que não, não é isso que tá acontecendo.

 

você quer continuar sendo humana, não um reflexo dessa sociedade rasa e efêmera.

 

Menina, eu só queria dizer que você não tá sozinha. Esse acúmulo de experiências nos torna melhores a cada dia, força a gente arranja juntas! café, risada e sol não vai faltar, pois esse mundo é lindo e cada dia tem que ser vivido no seu devido tempo :)

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Essas palavras são pra todas as amigas que tão vivendo essa vibe picnic-sábado-à-tarde ou manhãs-de-domingo-zero-ressaca (ambos servem).

Besitos, Lola

 

 

resumo de um domingo que ficou em outubro

1. FARM MARKET –  pela manhã: soft cheese com biopão, doce de abóbora e uns lattes.

2. DA NATA UCRANIANA/RUSSA AS EMBAIXADAS – caminhada levemente infinita pela Andrássy – desde a Deák tér até a Hősök tere.

3. JOIAS E PEDRAS RARAS – a de repente galeria bilionária (e perdida) com ares tailandeses.. peixes num lago artificial, vovós russas bebendo chá em xícaras milenares.

4. ESTATUAS E ART NOVEAU – uma igreja ortodoxa ucraniana, escondida entre pedacinhos de arte e ruas nunca antes percorridas.

5. CAFE – e mais café, no Liget café.

p.s.: perdão pela ausência de acentuação nas palavras em caps, mas eu ainda não aprendi a acentuá-las nesse tecladinho.

fragmentos

aquilo que dá sentido a nossa conduta sempre nos é totalmente desconhecido.

-milan kundera

 

sentido?

e isso não é um dilema só em praga

é um ora peso ora leveza

 

é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação.

Só buscar o sentido faz, realmente, sentido. Tirando isso, não tem sentido.

-leminski

budapeste de chico buarque

eis aqui uma lâmpada para um romance que já ocupa seu lugar no meu bauzinho de preciosidades;

BUDAPESTE, Chico Buarque, 2003

A história começa para mim já com uma tal dificuldade de encontrar o livro nas prateleiras da biblioteca. E naquela tarde de peso nos ombros, casacos e livros socados na bolsa, havia algumas muitas quadras a serem percoridas a pé.

Mas o benedito acaba por chegar até mim,  chega até a curtir a brisa do centro curitibano nos meus braços –  alguns bons trinta minutos – até acabar por esquecido no banheiro de um shopping, ao redor de espelhos, batons, descargas e mulheres apressadas que provavelmente não leem.

E o procurei, juntamente com um segundo exemplar aleatório de reportagens apaixonadas que acabou contentando (ou não) o esdrúxulo que roubou ‘meus’ livros do balcão de banheiro aquele dia. NADA.

Salva pela Estante Virtual, Budapeste chegou, meio amassado e empoeirado, diretamente para que eu me infiltrasse em sua ~vida~ que desde o começo se trata de um esquecimento opaco apagado anônimo secreto fantasma.

budapest

e, em meio a sol, trilhos, cigarros;

50 minutos me restaram para o fim da leitura de suas respectivas conclusoreminiscencias que de algum modo me tocam;

em algumas frases soltas:

  •  o cutucar profundo das talentosas palavras nunca reconhecidas – somente pagas$
  •  a vida de um escritor fantasma que, ora nas margens praiosas do rio, ora nas margens *amarelas* do Danúbio (…)
  • ora português, ora húngaro = escreve anonimamente para clientes cujo dom de, não possuem;
  • cigarros, nevasca, spaguetti a bolonhesa, kocsis ferenc, kriska,  pães de abóbora, zsoze kósta, cigarros fecske (…)

 

 

budapest

“A caminho de um congresso de escritores anônimos em Istambul, José Costa faz uma escala forçada na Hungria e fica fascinado pela língua magiar. Ele retorna à capital húngara para aprender o idioma e se torna amante de Kriska, sua professora. A partir daí, a narrativa desenvolve-se num contrastante vaivém entre Rio de Janeiro e Budapeste. ” – http://www.chicobuarque.com.br/critica/crit_budapeste_veja.htm

 

xícaras repletas de silêncio nato

20:22: os 3 mais uma vez em silêncio ao redor da tábua que suporta o pão

algo assobia lá fora – um algum vento

o gato se espreguiça de dentro da cesta em cima da geladeira

[pequenos movimentos que causam um pequeno conforto na alma de cada um]

também se agradecem as cegas e  raras festas no forro que acabam por romper  o silêncio predominante e distante de substituição;

oh

de repente alguém pronuncia uma palavra (ou tenta)

rompendo aquele silêncio sempre recorrente que mantém a tradição corrosiva milenar

a expectativa é logo quebrada com a expressão que nem chega a dar vazão a uma réplica.

e assim vivem os que não se falam

cup and silence